Artigo

Sobre Modelos Mentais

Um problema comum

Eu comecei a levar modelos mentais a sério quando percebi uma coisa desconfortável: boa parte dos meus problemas e dos problemas das pessoas ao meu redor, não vinha de falta de esforço. Vinha de pensar mal ou interpretar a realidade de uma maneira diferente da real.

Eu mesmo senti isso na pele, eu executava, reagia, improvisava, resolvia o que aparecia. Em muitos casos, funcionava. Me esforçava para resolver boa parte dos problemas como pura adição de horse power Mas, quando os problemas ficavam mais complexos, esse jeito de pensar mostrava seu limite. Eu estava usando energia demais e não estava alcançando o resultado que esperava e a maior parte das pessoas também não.

Reparei em determinado momento, que ninguém em volta de mim tinha a menor ideia do que estava fazendo e muita gente era puramente guiada por uma impressão de que estava pensando e por tentativa e erro a maior parte das vezes.

Quando virei pai e gestor essa forma de fazer as coisas se tornou insustentável.

Foi por isso que modelos mentais passaram a fazer tanto sentido para mim. Eles não são truques de produtividade nem frases bonitas para parecer inteligente. São estruturas para enxergar melhor a realidade e tomar decisões menos ruins, alavancas de pensamento que permitem que evitemos esse loop que descrevi.

Acho natural, então, que esse seja um primeiro ponto a ser abordado aqui.

O que são modelos mentais?

Um modelo mental é uma representação simplificada de como alguma parte do mundo funciona.

O mundo real é complexo demais para ser absorvido por inteiro. Ninguém consegue analisar todas as variáveis de uma situação em tempo real. O que fazemos, na prática, é usar então um atalho, uma abstração de como algo funciona. E aí está o pulo do gato, todo mundo tem modelos mentais, não importa se você sabe o que são ou não, diferença é que alguns “atalhos” são ruins, outros são melhores. Estudar os modelos mentais são os melhores atalhos que encontrei até agora.

Os modelos mentais úteis são aqueles que estão aqui há muito tempo, eles vêm de grupos como ciências naturais, biologia e engenharia

Eles funcionam como lentes. Cada lente destaca uma parte da realidade e nos ajuda a processar ela melhor, sem vieses e atalhos.

  • A inversão ajuda a enxergar o fracasso antes que ele aconteça
  • primeiros princípios ajudam a reduzir um problema até sua base, tirando o ruído
  • incentivos ajudam a entender por que pessoas e sistemas se comportam como se comportam
  • pensamento sistêmico ajuda a perceber efeitos de segunda e terceira ordem

Nenhum modelo explica tudo. Mas vários modelos juntos melhoram muito a qualidade da análise.

Modelos mentais são portanto pedaços de conhecimento abstraídos como já comentei de várias áreas, da física às artes. Todas as áreas contribuem um pouco, e o grande objetivo de quem estuda modelos mentais é entender os grandes conceitos fundamentais dessas áreas e aplicá-los no dia a dia.

Minha história com os modelos mentais

Ouvi falar de modelos mentais pela primeira vez em 2022, quando encontrei uma talk do lendário Charlie Munger. A ideia me pegou na hora.

O ponto central dele era simples e forte: você não entende o mundo direito usando uma lente só. Se tiver um ou dois modelos apenas, vai distorcer a realidade para fazê-la caber dentro deles. Se quiser desenvolver discernimento, precisa construir um repertório mais amplo.

Charlie ia além e enfatizava muito que deveríamos evitar a síndrome do martelo, em que todo problema vira prego. Ele fazia um paralelo com pessoas que aprendem a resolver um problema de uma única forma e tendem a resolver todos daquela mesma maneira. Um engenheiro tende a pensar tudo como sistema, um psicólogo tende a pensar em incentivos, um empresário em custo-benefício etc.

Foi essa ideia que me fez olhar o tema com mais seriedade.

Depois, fui me aprofundando em materiais como o trabalho da Farnam Street e o livro Pensamento Eficaz, de Shane Parrish. O que mais me chamou atenção nesses autores não foi a erudição. Foi o diagnóstico implícito: a maioria de nós nunca aprendeu de verdade a pensar com estrutura.

Aprendemos a opinar, reagir, repetir fórmulas e defender intuições. Pensar mesmo, de forma deliberada, já é mais raro.

Esse entendimento também serve como lente: você percebe que 90% das pessoas ao seu redor estão simplesmente sendo controladas por emoções, e não por um pensamento estruturado.

Charlie, então, no seu livro “A Sabedoria de Charlie Munger”, me deu um dos melhores conselhos:

“You’ve got to have multiple models, because if you have just one or two, you’ll torture reality until it fits your models.”

E complementou:

“I don’t think you can get worldly wisdom without 80 or 90 important models in your head.”

Desde então, embarquei na jornada de aprender esses modelos mentais.

Com a sorte de ter um ponto de alavancagem: o próprio Charlie Munger e suas ideias existem no meu tempo.

(BTW, o conceito de alavancagem da física é um excelente modelo mental para ser estudado.)

O primeiro modelo que realmente me marcou: inversão

O primeiro modelo mental que me pareceu imediatamente útil foi o da inversão.

E é um dos modelos que Charlie mais usava (Invert, always invert)

A ideia é quase boba de tão simples e vem da álgebra:

Em vez de perguntar apenas “como eu chego ao resultado?”, você pergunta:

  • o que eu preciso fazer para isso dar errado?
  • o que faria esse plano fracassar?
  • o que precisa ser verdade para eu falhar completamente?
  • Qual é o inverso de X?

Esse tipo de pergunta muda a qualidade do pensamento, porque a maioria das pessoas planeja de forma linear. Elas partem do objetivo e tentam construir um caminho direto até ele.

O problema é que a vida real não respeita linhas retas. Existem restrições escondidas, variáveis fora de controle, incentivos conflitantes, custos invisíveis e uma enorme quantidade de erro previsível. A inversão ajuda a trazer isso para a superfície.

Quando você mapeia o fracasso com honestidade, o sucesso fica menos abstrato.

Essa simples lente, usada para processar um problema, pode fazer a diferença, veja um caso.

Um caso prático

Um cliente precisava resolver um problema que, no papel, parecia simples: havia várias fontes de dados em Excel, e a ideia era automatizar a geração de dashboards para ele enviar os clientes dele.

O caminho mais óbvio seria fazer o que quase todo mundo faria:

  • consolidar os dados com um script em python;
  • organizar uma camada de tratamento simples;
  • conectar isso a um dashboard ou ao Power BI qualquer;

Funciona. Mas só até parar de funcionar…

Em vez de seguir direto para a implementação, eu usei a inversão. Comecei listando o que provavelmente faria o projeto fracassar no médio prazo.

  • Prender toda a solução a planilhas com estrutura frágil;
  • Assumir que colunas, formatos e caminhos de arquivos nunca mudariam;
  • deixar KPIs e dashboards tão engessados que qualquer nova necessidade exigiria retrabalho alto;
  • criar uma dependência técnica que reduzisse a autonomia do cliente;
  • projetar a performance para o tamanho atual do problema, como se o volume de dados nunca fosse crescer;

Essa lista mudou a arquitetura da solução.

Em vez de entregar apenas uma automação que resolvesse o problema imediato, pensamos em uma ferramenta mais flexível, capaz de permitir que o cliente gerasse os próprios gráficos e expandisse o uso sem depender da consultoria.

O resultado:

  • Mais autonomia para o cliente
  • Menos dependência operacional
  • Menos fragilidade diante de mudanças
  • Menos chance de a solução morrer na primeira variação de contexto

Esse é o tipo de valor que um modelo mental bem aplicado gera. Ele não faz você parecer mais inteligente. Ele faz você evitar erros caros.

Novamente, ele simplesmente é uma lente para você usar ao processar vários problemas.

Outro modelo que uso o tempo todo: primeiros princípios

Outro modelo que aparece com frequência no meu dia a dia é o pensamento por primeiros princípios.

A ideia aqui é desmontar um problema até chegar ao que é essencial, sem aceitar cegamente as convenções do processo, da ferramenta ou do costume.

Na prática, isso costuma aparecer em perguntas como:

  • por que essa regra existe?
  • qual problema original ela resolvia?
  • isso ainda é verdade hoje?
  • o que é restrição real e o que é herança de um jeito antigo de fazer?

Muita fricção operacional sobrevive porque ninguém volta para a raiz. A equipe passa a obedecer ao processo sem lembrar por que ele foi criado. O sistema continua de pé, mas já perdeu a relação com a necessidade original.

Quando você quebra um problema até a base, ganha a chance de reconstruir melhor. Nem sempre isso leva a uma solução brilhante. Mas frequentemente leva a uma solução menos burocrática, menos acidental e mais alinhada ao que importa.

Por que isso importa

No fim, como gestor, a maior parte do meu trabalho é prevenir e resolver problemas e tomar boas decisões das quais os efeitos de primeira e segunda ordem sejam positivos.

Para tomar boas decisões eu preciso saber pensar e ver as coisas da forma mais pura e real possível, longe do ego, longe do “Eu queria que fosse assim”

Isso significa aprender a lidar com incentivos, prioridades, alavancagem, gargalos, energia do time, velocidade de execução e efeitos colaterais de decisões que parecem boas no curto prazo.

Ter esse conjunto de ferramentas mentais então aumenta as opções da minha caixa de ferramentas e me ajuda e evitar a terrível síndrome do martelo, onde todo o problema vira um prego. Aquela tendência de resolver a mesma coisa da mesma forma sempre e, portanto, obter os mesmos resultados.

Por isso, modelos mentais se encaixaram tão bem para mim. Eles me forçam a sair da reação automática e observar o problema por ângulos diferentes.

Não é uma questão de acumular conceitos para citar em conversa (apesar de ser um assunto bem legal). É uma tentativa prática de melhorar o julgamento.

Pensar melhor, para um gestor, é a diferença entre o sucesso e o fracasso.

Como pai, e amigo isso me ajuda também, eu consigo ver e entender minha esposa e filhos melhor. Consigo dar conselhos melhores para meus amigos, pois consigo entender quando eles estão sendo guiados por incentivos, consigo apontar quando o ego ou uma emoção está guiando eles e etc…

O que mudou na prática

Desde que comecei a estudar modelos mentais com mais disciplina, notei algumas mudanças claras no meu jeito de trabalhar:

  • Penso com mais calma antes de convergir para a primeira solução óbvia
  • Identifico melhor riscos previsíveis
  • Questiono mais premissas que antes eu aceitava sem perceber
  • Consigo separar melhor urgência de relevância
  • Erro menos por impulso

Isso não elimina a incerteza. Não transforma uma decisão difícil em uma decisão fácil. Mas aumenta bastante a chance de atacar o problema certo do jeito certo e eu acho sinceramente que isso já é uma excelente vantagem.

Conclusão

Modelos mentais, para mim, são ferramentas de lucidez.

Eles ajudam a enxergar padrões, evitar autoengano e tomar decisões com mais estrutura. Alguns vêm da economia, outros da física, da biologia, da psicologia, da engenharia. O ponto não é a origem. O ponto é se aquele modelo melhora ou não a sua leitura da realidade.

Se antes eu resolvia problemas quase sempre na força bruta, hoje tento fazer outra coisa: usar lentes melhores.

Todos os dias eu tento aumentar minha caixa de ferramentas, aprendendo um novo modelo, uma nova forma de pensar.

Sempre que vejo alguém de sucesso eu me pergunto, quais são os modelos mentais que essa pessoa usa? O que ela sabe que eu não sei? Quais são as lentes que ela usa para analisar cada situação?

E isso, no longo prazo, muda bastante o tipo de resultado que você consegue construir.

E, consequentemente, te leva à posição almejada.

Pensar de verdade, sem ser guiado por impulsos, com o ego de lado e disposto a ver a realidade através da lente certa, é uma vantagem e tanto.

Dicas e fontes

Quero deixar algumas dicas e fontes aqui.

  1. Leiam! Ler é a melhor ferramenta que encontrei para absorver modelos mentais.
    1. Leiam biografias e livros técnicos principalmente.
  2. Estudem como os outros usam modelos mentais.
  3. Aplique os modelos mentais assim que aprender eles. (Isso é muito legal)

Livros

  1. A sabedoria de charlie Munger (https://www.amazon.com.br/sabedoria-Charlie-Munger-Peter-Kaufman-ebook/dp/B0DTZ1JCD2)
  2. Pensamento eficaz (https://www.amazon.com.br/Pensamento-eficaz-transformar-cotidianas-extraordin%C3%A1rios/dp/8539008122)
  3. Os grandes modelos mentais (https://www.amazon.com.br/Great-Mental-Models-Boxed-Set/dp/B0F5V7NJ78/)

Blog.

  1. Farnam Street (https://fs.blog/)